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CINZAS

DOMINGO

DOMINGO

DOMINGO

DOMINGO

DOMING0

RAMOS

QUNTA-FEIRA SANTA

SEXTA-FEIRA SANTA

SÁBADO SANTO

 

 

 

QUARESMA:

CAMINHO PARA A VIDA

 

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA

DOMINGO DE RAMOS

QUINTA-FEIRA SANTA

SEXTA-FEIRA SANTA

SÁBADO SANTO

 


 

As leituras do ano A (principalmente os 3º, 4º, 5º domingos) recolhem a tradição antiga que acompanha o catecúmeno na iniciação cristã - Baptismo, Eucaristia e Confirmação – Por estas leituras, o catecúmeno eleito é levado a recapitular o seu caminho: como chegou ao encontro com Jesus e à fé n’Ele.(cf. Iniciação Cristã dos Adultos -ICA nº 159). Os cristãos nascem da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, por isso não é de estranhar que toda a liturgia da Quaresma e Páscoa tenha sempre presente os catecúmenos eleitos e os neófitos.

Primeiro domingo: domingo da tentação. Trata-se de uma introdução geral a este tempo quaresmal, em vista a preparar para a luta que espera o homem nas suas opções definitivas. Neste domingo, a Igreja, depois de escutar o testemunho dos padrinhos e catequistas, dos párocos e da comunidade (ICA, 137) celebra a eleição dos admitidos aos sacramentos pascais. De notar que esta admissão supõe a caminhada fiel de vários anos de preparação. A eleição é um tempo de iluminação (Palavra de Deus) e purificação (conversão), acompanhado pela oração da comunidade sobre os eleitos (escrutínios), e pela entrega dos símbolos e tradições (Credo, Pai Nosso, Bíblia…). Iluminados pelos Evangelhos: da Samaritana, do cego de nascença e de Lázaro morto, os catecúmenos eleitos procuram rever o que foi o seu caminho para encontrar e acreditar em Jesus: Água viva, Luz do mundo, Vida eterna. De notar que todos esses evangelhos têm umapalavra-chave: “Tu crês? Eu creio!”. E é essa pergunta que o catecúmeno eleito vai ouvir e responder no momento antes do baptismo.


Segundo domingo: domingo de Abraão e da transfiguração. O baptismo é o sacramento da fé e da filiação divina. Como Abraão, pai dos crentes, também o catecúmeno deve partir, sair da sua terra (1ª leitura); entrevê-se a meta na transfiguração de Cristo (Evangelho); o baptizado também será chamado “filho de Deus”.


Terceiro domingo: domingo da Samaritana. Como Israel ao longo do Êxodo, também o catecúmeno busca a água que o salve (1ª leitura). Jesus indica-lhe, como à samaritana, que tem uma água viva capaz de extinguir toda a sede e torna-se fonte de água jorrando para a vida eterna. (Evangelho). Esta água é o seu próprio Espírito (segunda leitura). Como já tinha anunciado João Baptista, Jesus é aquele que baptiza na água e no Espírito Santo. A Igreja neste domingo celebra o 1º escrutínio. Durante a semana tem lugar a entrega do símbolo (o Credo).


Quinto domingo: domingo de Lázaro. No baptismo o homem passa da morte à vida (evangelho e 1ª leitura) e chega a ser capaz de agradar a Deus vivendo do Espírito do ressuscitado (2ª leitura). Celebra-se o terceiro escrutínio e durante a semana entrega-se como tradição aos catecúmenos a oração do Senhor (o Pai-nosso).


Com certa frequência fazemos da Quaresma um tempo frio, austero e sem alegria, esquecendo, que uma espiritualidade que se fixe apenas na Sexta-feira Santa, corre o perigo de atrofiar a alegria do Domingo de Páscoa.

Estes textos pretendem ser uma ajuda para viver o tempo de Quaresma como prova máxima do amor de Deus, manifestado em Cristo na cruz. É esta experiência que motiva a autêntica conversão e a coragem para entrar no mesmo caminho de Jesus: entregar a vida por amor e fé.


 

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QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 

Ambientação

A bênção e a imposição das cinzas são uma prática penitencial muito antiga. Nos primeiros séculos da Igreja os cristãos que haviam prejudicado a comunidade cristã com escândalos públicos, expiavam-nos durante a Quaresma. No começo deste tempo litúrgico recebiam as cinzas sobre as suas cabeças em sinal de humildade, e, a seguir, eram acompanhados à porta da Igreja. Até 5ª Feira-Santa não participavam nas assembleias da comunidade, mas permaneciam no átrio em sinal de penitência.
Hoje, em que tudo se permite e tudo se procura contestar, não só se está a perder a consciência do pecado como também a própria realidade dramática do pecado. Ao ouvirmos a palavra de Deus “lembra-te que és pó” (terra) é hora de defendermos a Terra que está a ser destruída pela ganância do lucro.
Na Quaresma orientemo-nos pela conversão – escutar Deus, e pela solidariedade – ajudar os necessitados. Jejum, hoje, é renunciar para mais partilhar.

A Palavra de hoje:

 

Joel 2, 12-18
Coríntios 5, 20-6, 2
Mateus 6, 1-6. 16-18


Meditação: Joel 2, 12-18

A mensagem do profeta Joel foi pronunciada provavelmente depois do desterro, no templo de Jerusalém. Uma praga de gafanhotos devastou os campos, provocando carestia de bens e fome (1, 2 – 2, 10). Como consequência, cessou o culto dos sacrifícios no templo (1, 13-16). O profeta lê os sinais dos tempos e por isso anuncia a proximidade do dia do Senhor, convidando todo o povo ao jejum, à oração, à penitência (2, 12.15.-17a).


A palavra-chave deste texto, repetida três vezes nos primeiros versículos é voltar (shûb em Hebraico) verbo clássico da conversão. O v. 12 apresenta ao povo o convite, à conversão. Sem a renovação interior e a mudança do coração os ritos litúrgicos não agradam a Deus. No v. 13, o convite à conversão aparece de novo e a motivação é porque o Senhor é sempre misericordioso. No v. 14 o mesmo verbo se refere a Deus abrindo uma porta à esperança: “perdoará uma vez mais”. A conversão expressa-se num amor sincero a Deus, numa fé mais sólida, e numa esperança que se faz oração comunitária e penitente. Tendo estas disposições, o profeta e os sacerdotes poderão pedir ao Senhor que se mostre zeloso com a sua terra, compassivo com a sua herança (vv.17s).
 

Meditação - Mateus 6, 1-6.16-18

Tende cuidado que a vossa justiça não seja como a dos fariseus (v.1). Jesus pede aos seus discípulos uma justiça superior à dos escribas e fariseus (cf. Mt 5, 20). Mesmo que as práticas exteriores sejam as mesmas, Jesus reclama a vigilância sobre as intenções que nos movem a actuar.

O evangelho repete primeiro as três obras típicas da piedade judaica: a esmola (6, 2-4); a oração (6, 5-15) e o jejum (6, 16-18). A novidade de Jesus é esta: essas obras não valem de nada se forem feitas para vanglória e a própria recompensa. O valor delas consiste em fazê-las diante do Pai que vê no segredo. Jesus completa a tradição ensinando-nos o Pai-nosso e ressaltando como é indispensável o perdão …”mas se não perdoardes aos homens também o vosso Pai não perdoará os vossos delitos” (Mt 6, 15).

Penitência e arrependimento não são sinónimos de abatimento, tristeza ou frustração; pelo contrário, constituem uma modalidade de abertura à luz que pode dissipar as obscuridades interiores, tornar-nos conscientes de nós mesmos na verdade e fazer-nos experimentar a misericórdia de Deus. Quem vive na presença de Deus, é livre.

Aquele que nos envolve com amor total liberta-nos do nosso mal e reveste-nos de uma inocência nova.
O Senhor tinha confiado ao profeta a missão de convocar o povo para suscitar uma nova esperança através de um caminho penitencial; aos apóstolos confia-lhes o ministério da reconciliação; à Igreja hoje, encarrega-a de proclamar que agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!
Renovados pelo amor aprenderemos a viver sob o olhar do Pai, contentes de poder cumprir humildemente o que lhe agrada e ajudar os nossos irmãos. A sua presença no segredo do nosso coração será a verdadeira alegria, a única recompensa esperada e de que temos já um antegosto.

Perguntas para reflexão

- Que significado tem para nós, hoje, o jejum, a oração, a esmola?
- Com que atitudes devemos iniciar e viver o tempo da Quaresma?

A Palavra converte-se em oração

Meu Pai, Tu que vês no escondido,
sabes como fujo do mais íntimo de mim mesmo
e como busco a admiração dos homens.
Ó pobre recompensa do orgulho do meu “eu”
que representa o seu papel na comédia humana!
Muito distinto, muito mais desconcertante
é o mistério da tua piedade,
mas como ainda o ignoro,
vou vagueando longe de Ti.
Faz-me voltar, te suplico,
à profundidade do meu ser onde tu moras.
Na luz nova do arrependimento
exultarei de alegria na tua presença.

Pai nosso, que estás nos céus,
tu conheces o mal do mundo
e como eu para ele, cada dia,
contribuo com o meu egoísmo
e desobediência à tua Palavra.
Ajuda-me hoje a acolher o dia da salvação;
concede-me agora a graça de olhar para o teu Filho,
tratado como pecador e crucificado por nós, por mim.
Reconciliado por Ele, Amor infinito,
viverei no amor humilde
que não busca outra recompensa além de Ti.


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PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

 

Ambientação

No primeiro Domingo da Quaresma lemos o relato das tentações de Jesus segundo o Evangelho de S. Mateus, que nos convida a centrar-nos no que significaram as tentações na vida de Jesus e o que significam para nós, seus seguidores.

A Palavra de hoje:

 

Génesis 2, 7-9; 3,1-7
Romanos 5, 12-19
Mateus 4, 1-11


Meditação - Génesis 2, 7-9; 3,1-7

O plano de Deus e o problema do mal constituem, em síntese, os temas propostas pela liturgia neste texto. Da terra (adamah), da matéria, Deus forma o homem (adam) e insufla nele a sua própria respiração e o homem torna-se um ser vivente. Rodeia-o de bem e de beleza (v. 9), coloca-o num ambiente preparado com esmero e confia-lhe uma tarefa, uma missão: cultivar e guardar o jardim (a Terra) (v.15). Dá-lhe ampla liberdade para determinar e transformar a realidade que o rodeia mediante o trabalho e a autoridade pessoal (vv.9s). Decidir o que é bem ou o que é mal não é da competência do homem. Para discernir isso deve escutar a Deus. O pecado é desobediência à voz de Deus.

A árvore do conhecimento do bem e do mal é a própria consciência onde Deus fala. Na consciência nós não mandamos, obedecemos.
O texto bíblico diz-nos que o mal também vem por uma influência externa que induz a uma opção errónea.
O termo para indicar a serpente significa também adivinhação, os cultos idolátricos e de fertilidade, com o que o símbolo da serpente tinha muito que ver e que não deixavam de atrair Israel. No texto, a serpente trata da ordem de Deus (não comerás) como se fosse uma mentira. (v.4ss).
Esta narração está a responder a uma pergunta fundamental da humanidade: se Deus é bom e fez tudo bem porque é que existe tanto mal neste mundo?
O paradoxo está no facto de que, quando o homem não aceita Deus como o seu Criador e desobedece, traz o mal ao mundo e descobre a sua nudez, com outras palavras, que não é nada, que não tem nada que não lhe tivesse sido dado.


Meditação - Mateus 4, 1-11

Jesus, proclamado pelo Pai, Filho no qual tem toda a sua alegria, logo a seguir ao baptismo é conduzido “pelo Espírito” ao deserto onde vai ser tentado pelo diabo.

Jesus, que veio para recapitular toda a humanidade, deu total adesão à vontade do Pai. Adão e Eva e o povo de Israel não o fizeram. Jesus, no episódio das tentações, é submetido às mesmas tentações do povo do Êxodo, como indicam as citações do Deuteronómio com as quais responde a Satanás (Dt 8, 3; 6, 16; 6, 13). Mas onde Israel falhou, Jesus vence.

A manha diabólica começa por apresentar a Jesus as esperanças messiânicas e pedindo-lhe que demonstre se é verdade que é Filho de Deus como tinha afirmado a voz vinda do céu (cf. Mt 3, 17). À proposta de um messianismo que satisfaça com facilidade as necessidades materiais do homem, Jesus responde: “nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. À imagem de uma missão milagreira e espectacular que o diabo lhe propõe, Jesus opõe uma submissão incondicional aos desígnios de Deus (vv.5-7). À tentação do êxito segue finalmente a do domínio – converter-se em senhor da terra, ceder à idolatria do poder –, mas o caminho messiânico que Cristo intuiu no deserto é muito diferente. Com a autoridade que lhe vem da sua dedicação plena a Deus, Ele, o perfeito adorador do Pai, vence as tentações.

Mateus apresenta-nos Jesus não só como o verdadeiro Israel, mas também como o novo Moisés, ao citar o jejum de quarenta dias e quarenta noites, e ao mencionar o “monte altíssimo” onde o diabo lhe mostra todos os reinos da terra, aludindo a Dt 34, 1-4. Estes quarenta dias no deserto preparam Jesus para que assuma a condução do novo povo de Deus, a quem Ele oferece a nova Lei no sermão da montanha (cf. Mt 5 – 7).

Perguntas para reflexão

- Quem conduz Jesus ao deserto?
- Recordas outras passagens da Bíblia em que se fale do deserto? (Podes ler Dt 8, 2-3; Os 2, 16).
- Jesus supera as tentações. Imediatamente depois, o que é que Ele anuncia? A que é que convida? (cf. Mt 4, 17-19)
- As tentações de Jesus no deserto parecem-se às que as nossas comunidades cristãs têm que enfrentar hoje? Quais são elas? Como podemos vencê-las aprendendo de Jesus?


A Palavra converte-se em oração

Rezemos juntos o Salmo 51 (50):

Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade;
pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade;
purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas
e tenho sempre diante de mim os meus pecados.

Contra ti pequei, só contra ti,
fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença
e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa
e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser
e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.

Purifica-me com o hissope e ficarei puro,
lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria
e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados
e apaga todas as minhas culpas.

Cria em mim, ó Deus, um coração puro;
renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença,
nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação
e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos
e os pecadores hão-de voltar para ti.

Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue,
e a minha língua anunciará a tua justiça.
Abre, Senhor, os meus lábios,
para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios
nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito;
ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
Pela tua bondade, trata bem a Sião;
reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos,
os holocaustos e as ofertas;
então serão oferecidos novilhos no teu altar.

 

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SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

 

Ambientação

No Domingo passado dialogámos sobre os nossos desertos e as dificuldades que experimentamos no seguimento pessoal e comunitário de Jesus. Também não foi fácil para os primeiros discípulos entender que o seu Mestre ia a caminho de Jerusalém e que morreria na cruz. Neste contexto, Jesus anima-os a manterem-se fiéis no seu seguimento e mostra-lhes a luz da transfiguração, sinal da sua ressurreição.


A PALAVRA DE HOJE:

Génesis 12, 1-4a

Timóteo 1, 8b-10
Mateus 17, 1-9


Meditação - Génesis 12, 1-4a

 

Depois da aliança que Deus estabeleceu com Noé, em que Deus jurou fidelidade ao que criou (cf Gen 9), os homens continuam inclinados para o mal (cf. Gen 11). Mas Deus continua a buscar a comunhão com os homens: à dispersão de Babel segue a vocação de Abraão, chamado significativamente a romper todo o vínculo social e clânico para poder seguir incondicionalmente os caminhos do Senhor. (Gen 12, 1).

Ao mandato de Deus: “sai da tua terra…” segue-se uma promessa de bênção super abundante: em dois versículos aparece cinco vezes. Tal repetição indica os três âmbitos da acção de Deus em favor de Abraão.
O primeiro é a promessa de uma posteridade humana impossível (Gen 11, 30), acompanhada de um nome imposto por Deus (como contraposição a Gen 11, 4). O segundo âmbito, manifestado no v. 3 a, amplia o horizonte a todos os que reconheçam e acolham a história de salvação que Deus inaugura a partir de Abraão: converter-se-ão em filhos da promessa. Pelo contrário, quem pretenda ser obstáculo não conseguirá o seu intento (cf. Num 22 – 24). No v. 3b o horizonte universaliza-se: o terceiro âmbito da acção benéfica de Deus é a inclusão de todas as raças da terra na história de salvação.

Em Cristo, a promessa de Deus dilatou-se a todas as gentes (cf. Gal 3, 15-18) até à plenitude no Reino de Deus. Ao mandamento de Deus segue-se a obediência de Abraão, deixando que Deus disponha de si e do seu destino. Confiando nele pôs-se a caminho de outra terra, como lhe tinha dito o Senhor. Nesta marcha, não só Israel, mas todos “os filhos da promessa”, reconhecem o modelo das sucessivas saídas que o Senhor pedirá aos seus: o Êxodo, o regresso de Babilónia; no Novo Testamento o êxodo do próprio Jesus (morte e ressurreição) e o consequente seguimento dos discípulos no caminho de Jesus.
 

Meditação - Mateus 17, 1-9

No texto de Mateus, a narração da transfiguração começa com uma indicação cronológica “seis dias depois”. Esta cronologia mostra a ligação com o texto profissão de fé de Pedro, com o primeiro anúncio da paixão e com a declaração de que para ser discípulos é necessário segui-lo pelo caminho da cruz.

No alto do monte, Jesus mostra-lhes o seu aspecto divino “mudando de aspecto” v.2. Mateus insiste particularmente na luz e no fulgor que emanam dele, evocando a figura do Filho do homem de Dan 10 e a narração da manifestação de Javé no cimo do monte Sinai (Ex 34, 29-33)
As contínuas alusões às teofanias do Antigo Testamento (Ex 19, 16; 24, 3; 1 Re 19, 11) indicam que se está a passar algo extremamente importante: em Jesus, a antiga aliança vai transformar-se em “nova e eterna aliança”. A aparição de Moisés e Elias testemunha que Jesus é o cumprimento da Lei e dos profetas; é Ele que guiará o povo à verdadeira terra prometida - vida eterna no amor - e à integridade da fé em Deus.

A intervenção de Pedro (v.4) indica o contexto litúrgico da festa dos tabernáculos, a mais alegre e resplandecente de luzes, que comemorava o tempo do êxodo, quando Deus baixava ao meio do seu povo morando também numa tenda, a tenda do encontro. A nuvem da presença (skekinah), que agora desce e envolve os presentes, actualiza e leva à plenitude a liturgia: como declara a voz que se ouve do céu. Jesus é o profeta maior preanunciado pelo próprio Moisés (Dt 18, 15) e é-o por ser o Filho predilecto de Deus. A ordem é “escutai-O” (v.5)

Face esta manifestação extraordinária de glória, um grande temor se apodera dos discípulos. Jesus reanima-os com os seus gestos e a sua palavra (v.7), como o Filho do homem da visão de Daniel. Torna-se mais desconcertante e incompreensível para os discípulos o que Jesus já só, lhes diz: “não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do homem ressuscite dos mortos”.

A liturgia de hoje pede-nos para entrar pelo caminho estreito e difícil; o caminho da fé obediente que exigiu a Abraão umas rupturas concretas e dirigir-se a metas desconhecidas. É o caminho da difícil perseverança que exige a Timóteo vencer o desalento e uma generosidade renovada do dom de si (2ª leitura). É o caminho do sofrimento e da morte que Jesus percorre, plenamente consciente, preparando os seus discípulos para que também o afrontem com fortaleza. Sem dúvida, é o único caminho que conduz à verdadeira vida, à glória autêntica, à luz sem ocaso.

Desde já nos é concedido a graça de antegozar um pouco o esplendor da transfiguração para prosseguir o caminho com entusiasmo. A promessa de bênção divina cobriu de esperança a vida de Abraão; a força de Deus ajuda Timóteo a obter a graça de Cristo para difundir o evangelho com entusiasmo; a visão de Cristo transfigurado dá lembrança de luz aos discípulos na hora da ignomínia e da cruz.

O sofrimento é fiel companheiro no caminho da vida, mas na prova não estamos sós: Jesus está a nosso lado com “varão de dores que conhece bem o que é sofrer”, como o primeiro que levou o peso da cruz. Isto basta para mantermo-nos confiantes que o seu poder se manifesta plenamente na nossa debilidade; nos injecta ânimo para assumir estas opções no caminho até à Páscoa e para dar testemunho da ressurreição.

Perguntas para reflexão

- Que relação tem este texto da transfiguração com a etapa crítica na vida de Jesus (crise da Galileia!) e da fé dos discípulos? (cf. Mt 16, 13ss; Mt 14,22-33;Mc 10, 32).
- Tenta descobrir quais foram na tua vida os momentos de luz, os momentos de transfiguração. Quando vistes outras pessoas com quem vives transfiguradas, bonitas, atraentes?
- Onde encontramos hoje a Cristo transfigurado, ressuscitado e que nos transfigura?
- Esta passagem da Transfiguração que motivos te dá para viveres com alegria e esperança este tempo da Quaresma? A que compromisso te leva?

A Palavra converte-se em oração

Senhor Jesus,
que antes da Paixão mostrastes aos teus discípulos, o teu rosto glorioso,
a fim de que não desfaleçam na hora da grande prova,
convida-nos também a nós a subir contigo ao monte.
No meio do silêncio e do recolhimento,
faz que sintamos ressoar no nosso coração a tua Palavra,
que é luz para os nossos passos e apoio para enfrentar,
com uma fé sempre renovada,
o caminho quotidiano da vida neste vale de lágrimas.
Agradecemos-te pelos momentos de luz e transfiguração
que experimentámos na nossa vida
e nos animam a continuar apesar das dificuldades.
E, enquanto solícitos,
avançamos na nossa peregrinação terrena até à casa do Pai,
te pedimos, humildemente,
pelos nossos irmãos mais pobres e sofredores,
pelos nossos companheiros de viagem
mais duramente provados e tentados pelo desfalecimento,
que recebam desde já a graça
de verem transfiguradas as suas dores naquela luz gloriosa
que marca a passagem da cruz à glória da ressurreição.



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TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA

Ambientação

Como Israel ao longo do Êxodo, também o catecúmeno busca a água que o salve (1ª leitura). Jesus indica-lhe, como à samaritana, que tem uma água viva capaz de extinguir toda a sede e torna-se fonte de água jorrando para a vida eterna. (Evangelho). Esta água é o seu próprio Espírito (segunda leitura). Como já tinha anunciado João Baptista, Jesus é aquele que baptiza na água e no Espírito Santo. A Igreja neste domingo celebra o 1º escrutínio. Durante a semana tem lugar a entrega do símbolo (o Credo).


A Palavra de hoje:

Êxodo 17, 3-7
Romanos 5, 1-2.5-8
João 4, 5-42


Meditação - Êxodo 17, 3-7

No seu caminho para a terra prometida, o povo sofre repetidamente fome e sede. Fome e sede são as duas constantes do caminho pelo deserto, terra de prova e de purificação, onde só se pode avançar por meio da fé. O episódio de Massa e Meriba é emblemático. Em primeiro lugar os nomes têm um significado eloquente: Massa (tentação, prova) e Meriba (murmuração, protesto). Depois do primeiro trecho do caminho, o povo já se encontra extenuado pela sede. Qual foi a sua atitude? Notemos os verbos “protesta”, “murmura”, “põe à prova”. Desconfia de Deus e duvida de que Moisés seja o homem enviado para salvá-lo; daí a pergunta que manifesta o seu cepticismo: “está ou não o Senhor no meio de nós?” (v.7)
Abre-se assim a segunda parte da narração: Moisés, como intercessor, invoca a ajuda do Senhor que responde em seguida, mandando-lhe golpear a rocha com o mesmo bastão com que tinha golpeado as águas do Nilo. E isto evidencia ao povo incrédulo a presença contínua de Deus, que, na plenitude dos tempos, se manifestará precisamente como o Emanuel, o Deus-connosco. Moisés obedeceu e brotou uma fonte de água. O episódio parece concluído. Sem dúvida, este acontecimento, como outros, por insignificantes que pareçam, terão uma grande ressonância tanto no povo eleito (cf Sl 77, 15s; 94,8; 104,41; Sab 11, 4) como na vida de Moisés. Por causa da falta de fé do povo e da sua própria dúvida (Num.20, 12) Moisés morreu sem entrar na terra prometida, contemplando-a só de longe (cf. Dt 34,4).

Meditação - João 4, 5-42

O evangelista lê a revelação do mistério profundo da pessoa de Jesus nas vicissitudes quotidianas. É meio-dia. Junto ao poço de Sicar (v. 5; cf Gen 48,22) tem lugar o encontro e o diálogo insólito (v.8) entre uma mulher samaritana e um “judeu” (v.9). No seu diálogo a mulher vai ficando surpreendida com o comportamento e palavras de Jesus e vai-lhe fazendo perguntas sobre quem Ele é. Será ele “maior que Jacob”? (v. 12), afirma que é um profeta por que lhe disse tudo o que ela fez (v.39) e quando diz “eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir” Jesus lhe revela: “sou Eu que estou a falar contigo.” (v.26) Sucessivamente vão chegando os discípulos (v. 27-38), finalmente outros samaritanos conterrâneos da mulher, trazidos por ela: “Eia! Vinde ver um homem” (v.29). Estes samaritanos, depois de encontrarem Jesus e de lhe pedirem que ficasse com eles, dizem: “Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo (v.40-42).
Quem é, pois, aquele rabi que se atreve a conversar com uma mulher (v.26), e ainda por cima, samaritana, quer dizer, considerada herética (vv.17-24; cf 2 Re 17, 29-32) e pecadora (v. 18)? As pessoas que vieram ao seu encontro fazem um processo de fé e acabam por professar: “Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo (v. 42), o que nos dá a água viva (v.10), isto é, o Espírito Santo. Estamos no cume da narração e do seu conteúdo teológico.

Perguntas para reflexão

- Desta passagem do Evangelho como podemos rever o nosso próprio processo de fé: como encontrei a Jesus na minha vida?
- Que significa para nós que Jesus é a “água viva”? De que modo Jesus sacia a nossa sede?
-  Neste encontro de Jesus com a samaritana (samaritanos) que barreiras existiam e foram ultrapassadas?(Raça, género, religião)
-  Que preocupação temos em trazer outros a Cristo (v.29) para que eles próprios também o descubram e se alegrem? (v.42)

A Palavra converte-se em oração

Salmo 63 (62)

Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio por ti!
A minha alma tem sede de ti;
todo o meu ser anela por ti,
como terra árida, exausta e sem água.
Quero contemplar-te no santuário,
para ver o teu poder e a tua glória.
O teu amor vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios te hão-de louvar.
Quero bendizer-te toda a minha vida
e em teu louvor levantar as minhas mãos.
A minha alma será saciada com deliciosos manjares,
com vozes de júbilo te louvarei.
Lembro-me de ti no meu leito,
penso em ti, se fico acordado,

porque Tu és o meu auxílio,
e à sombra das tuas asas eu exulto.
A minha alma está unida a ti,
a tua mão direita me sustenta.
Os que procuram a minha ruína,
cairão nas profundezas do abismo.
Eles morrerão à espada
e serão transformados em pasto de chacais.
Mas o rei há-de alegrar-se em Deus,
cantarão louvores os que juram por Ele,
enquanto a boca dos mentirosos será fechada.

 

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QUARTO DOMINGO DA QUARESMA

 

Ambientação

No baptismo o homem assume a sua condição de viver livre e como irmão, aceitando viver de Cristo (Evangelho); deixa-se capacitar para viver como filho da luz (2ª leitura), e é consagrado com a unção real (1ª leitura). Neste domingo, celebra-se o segundo escrutínio, isto é, oração da comunidade sobre os eleitos, para iluminação e purificação.

A Palavra de hoje:

1 Samuel 16, 1b.4a.6-7.10-13a
Efésios 5, 8-14
João 9, 1-41


Meditação - 1 Samuel 16, 1b.4a.6-7.10-13a

Com a unção de David a realeza passa à tribo de Judá: cumpre-se assim a predição de Jacob no seu leito de morte, vendo o futuro das diversas tribos (cf. Gen 49, 8-12). Também o ancião Samuel deve aprender a olhar com os olhos de Deus. Pois o Senhor “viu” (como indica literalmente o v.1b) entre os filhos de Jessé, um rei segundo a sua vontade e manda o profeta consagrá-lo. Como conhecer entre os jovens que desfilam diante dele o eleito de Deus? Samuel “vê” as qualidades do primogénito parecidas às de Saul, mas o Senhor indica outro critério de discernimento: o “ver” de Deus é distinto do “ver” humano (v. 7 no original), porque Deus olha ao coração, não ao exterior.

De acordo com este olhar divino, Samuel descarta os filhos mais velhos de Jessé (vv.8-10) e procede logo, sem duvidar, à unção do mais novo, sem ter em consideração o seu pai (v. 12). Sobre este “pequeno” se pousará de modo estável (v. 13b) o Espírito do Senhor, esse Espírito que só de modo ocasional tinha irrompido nos Juízes e que abandonou definitivamente a Saul (v.14), repudiado por Deus por causa da sua orgulhosa desobediência.

Meditação - João 9, 1-41

A narração do milagre do cego de nascença alcança todo o seu alcance teológico no contexto em que aparece: a festa das Tendas (Jo 7 – 10). Jesus revela-se a “luz do mundo” (8, 12), suscitando a consequente polémica com os fariseus. O milagre acontece nas imediações do templo. Os discípulos fazem uma pergunta: Quem pecou? O cego de nascença nada pede. É Jesus que o olha e toma a iniciativa de ungir-lhe os olhos.

O texto aborda um tema fundamental: a teologia da retribuição. Se alguém sofre é porque alguém pecou. Jesus afirma claramente: “não foi um pecado seu nem de seus pais”. A cegueira (sofrimento) indica mais claramente a situação do homem. Todos somos cegos de nascença. Todos estamos “enfermos” de uma enfermidade tão grave que não nos restam forças para recorrer ao único que pode curar.

A cura, a salvação é iniciativa de Jesus. A sua acção faz lembrar o relato da primeira Criação (cf. Gen. 2, 7; o barro, aplicado agora aos olhos: v.6). Para que o homem possa ver a luz, precisa-se de uma nova criação. Jesus dá uma ordem ao cego de nascença que, ao contrário de Adão, obedece. No cego de nascença vai-se dando um processo de fé. Vejamos os passos deste caminho para a fé.

1 – No primeiro encontro com Jesus, o cego de nascença não sabe quem é Jesus, mas obedece às suas palavras: “Vai, lava-te na piscina de Siloé”v.7 (Siloé, quer dizer enviado). Ir no caminho indicado.
 

2- Na surpresa e dúvida dos seus conhecidos, face à mudança que nele aconteceu, ele reafirma a sua identidade: “sou eu mesmo” v.9. e responde às perguntas sobre quem o curou e diz que foi esse homem que se chama Jesus. Assumir-se diante dos vizinhos e conhecidos.

3 - Depois levaram-no aos fariseus, representantes da religião, diante dos quais tem que responder de novo às perguntas: como que ficastes a ver? Neste momento ele tem a coragem de contradizer os chefes da religião e afirma que Jesus vem de Deus e é um profeta (v.16-17). Assumir-se diante dos representantes da religião.

4 - No passo seguinte é a família que tem que fala e que se nega por medo. Dizem aos fariseus para perguntarem ao próprio que já tem idade para responder. Assumir-se diante da família.

5 - Expulsam-no da sinagoga. Assumir o sofrimento por fidelidade

6 - Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e quando o encontrou disse-lhe: tu crês no Filho do homem? Receber a graça do segundo encontro com Jesus

7 - Ele respondeu: E quem é Senhor, para eu crer nele? Disse-lhe Jesus: Já o vistes. È aquele que está a falar contigo. Então exclamou. Eu Creio, Senhor! (vv 35-38) Professar a fé.


 

Perguntas para reflexão

- Como era vista a doença no tempo de Jesus?
- Como vai crescendo na fé o cego de nascença?
- Olhando para este texto que dificuldades já enfrentastes para acreditar em Jesus?
- De que cegueira necessitamos ser curados para nos tornarmos uma ver dadeira comunidade de irmãos e irmãs, filhos e filhas da luz?


A Palavra torna-se oração

(Oração composta pelo Pe. Arnaldo e rezada cada 15 minutos por todos os confrades)

Deus verdade eterna,
Cremos em vós.
Deus, nossa força e salvação,
esperamos em vós.
Deus, bondade infinita
Amamo-vos de todo o coração
Enviastes o Verbo, Salvador do mundo
Fazei que n’Ele sejamos um.
Infundi em nós e Espírito do Filho,
Para que glorifiquemos o Vosso nome.
Ámen.

 

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QUINTO DOMINGO DA QUARESMA

Ambientação

No baptismo o homem passa da morte à vida (Evangelho e 1ª leitura) e chega a ser capaz de agradar a Deus vivendo do Espírito do ressuscitado (2ª leitura). Celebra-se o terceiro escrutínio e durante a semana entrega-se como tradição aos catecúmenos a oração do Senhor (o Pai-nosso).

Os catecúmenos eleitos reúnem todos os domingos, reflectem sobre os evangelhos, partilham uns com os outros como foi o seu caminho pessoal para acreditar em Jesus e no final da semana santa fazem um retiro de preparação para a vigila pascal, durante a qual recebem os sacramentos de iniciação cristã.

A Palavra de hoje:

Ezequiel 37, 12-14
Romanos 8, 8-11
João 11, 1-45


Meditação - Ezequiel 37, 12-14

Na liturgia deste domingo fala-se da ressurreição num crescendo que vai desde o presente fragmento do Antigo Testamento à vitória definitiva de Cristo sobre a morte. Deus, pela boca de Ezequiel, anuncia a próxima abertura dos túmulos.

Trata-se do regresso dos desterrados. Desde o ano 586 a.c., os hebreus encontravam-se deportados na Babilónia e outros lugares, e o desalento apoderou-se dos seus corações, mas o Senhor vai fazer que o seu povo, que se sente como um morto em terra estrangeira, experimente directamente o seu poder vivificante. Deus é quem tem poder de cumprir quanto promete (cf. v.14b). Esse dia será como uma nova criação. As imagens que Ezequiel utiliza pré-anunciam a futura proclamação da salvação integral da humanidade na ressurreição de Jesus.

Meditação - João 11, 1-45

O texto da “ressurreição de Lázaro”prepara directamente os acontecimentos pascais e explicita um dos aspectos fundamentais da cristologia joanina. Num crescendo lento, no relato passa-se da narração da doença (vv.1-6), à morte e à sepultura (v.7-37), até à ressurreição ao quarto dia (vv.38-44). Nas entrelinhas aparece a humanidade de Jesus cheio de ternura, que não reprime as lágrimas nem os soluços (vv.33.35), e mostra Jesus numa família amiga - Marta, Maria e Lázaro.

Diante do maior obstáculo da vida que é a morte, a pergunta sobre a fé não é colocada a pessoas desconhecidas, mas a pessoas amigas e discípulas de Jesus.
Diante da fé na ressurreição no último dia, já presente nalguns sectores judaicos e que Marta reafirma, Jesus declara-se Ele mesmo “EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA” (v.25). e pergunta-lhe: “Crês nisto?”
O “credo” de Marta é em si igual ao de Pedro. Sim, Senhor, Tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo.

“Eu sou a ressurreição e a vida” é a palavra mais reveladora deste texto. Faz lembrar a revelação do nome “JAVÉ” (Ex. 3,14). O potente grito com que Jesus chama Lázaro para fora do sepulcro (v.43) tem a força do chamamento à vida do primeiro Adão (cf. Gen 2, 7) e o dramatismo da entrega do Espírito de Jesus na cruz: “ Jesus deu um grande grito: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). E o Pai, que sempre escuta o grito do inocente, vai dar a Jesus a Ressurreição que é a NOVA CRIAÇÃO.
 


Perguntas para reflexão

- O que é que te diz este grupo de amigos de Jesus: Marta, Maria e Lázaro?

- Que tem isto a ver com o nosso conhecimento de Jesus e o nosso relacionamento com Ele como família - Igreja doméstica?
- Qual foi a maior crise de fé para os discípulos de Jesus?
- Que relação tem este texto a ver com o nosso baptismo? (cf. Rom 6, 3-5)
- A experiência da morte de um ser querido ajudou-te a amadurecer na fé em Jesus? De que modo?
- Como devia influir a nossa fé na ressurreição, na forma de viver a morte desde agora e na vida de cada dia?



A Palavra converte-se em oração

Salmo 116 (114-115)


Amo o Senhor,
porque ouviu a voz do meu lamento.
Ele inclinou para mim os seus ouvidos,
no dia em que o invoquei.
Cercaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do sepulcro;
estava aflito e cheio de ansiedade,
mas invoquei o nome do Senhor:
«Ó Senhor, salva-me a vida!»
O Senhor é bondoso e compassivo,
o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples;
eu estava sem forças e Ele salvou-me.
Volta, minha alma, ao teu repouso,
porque o Senhor foi bom para contigo.
Ele livrou da morte a minha vida,
das lágrimas, os meus olhos,
da queda, os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
no mundo dos vivos.
Eu tinha confiança, mesmo quando disse:
«A minha aflição é muito grande!»

Na minha perturbação, eu dizia:
«Todo o homem é mentiroso!»
Como retribuirei ao Senhor
todos os seus benefícios para comigo?
Elevarei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor.
Cumprirei as minhas promessas feitas ao Senhor
na presença de todo o seu povo.
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte dos seus fiéis.
Senhor, sou teu servo, filho da tua serva;
quebraste as minhas cadeias.
Hei-de oferecer-te sacrifícios de louvor,
invocando, Senhor, o teu nome.
Cumprirei as minhas promessas feitas ao Senhor
na presença de todo o seu povo,
nos átrios da casa do Senhor,
no meio de ti, Jerusalém!
Aleluia!

 

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DOMINGO DE RAMOS

 

A Palavra de hoje:

 

Isaís 50, 4-7
Filipenses 2, 6-11
Mateus 26, 14 – 27, 66


Meditação - Isaís 50, 4-7

A fidelidade a Deus e aos homens – à missão recebida em seu favor – faz que o Servo de Javé permaneça firme no sofrimento, na ignomínia, no aparente fracasso. Atento discípulo da Palavra de Deus, profeta e mestre de sabedoria com o povo, com a sua sorte prefigura a de Cristo, o humilde que não opôs resistência à vontade do Pai nem se subtraiu à maldade dos homens, seguro – até à hora suprema do abandono na cruz – de que o desígnio de Deus é dom de salvação que se oferece a todos (v.7; cf. Mc 15, 34 e Lc 23, 43.46).



Meditação - Mateus 26, 14 – 27, 66

A paixão de Jesus é paradoxalmente – na narração de Mateus – a paixão do Filho do homem, do Senhor da glória, do Juiz universal. Ele é o Deus-connosco, e salva-nos pelo caminho do Servo sofredor, sendo crucificado “como cordeiro conduzido ao matadouro”. Aí nos deu a prova máxima do plano de Deus que é amor. Aquele que podia ter recorrido a mais de doze legiões de anjos para livrar-se das mãos dos homens, deixa-se capturar sem resistência (26, 50b-54); cala-se diante dos “grandes” sem utilizar manifestações sobrenaturais (27, 14.19); reza três vezes humildemente ao Pai, (v.39.42.44), sofre a solidão (v.40) e partilha com os discípulos a sua tristeza de morte (v.38) e a sua debilidade da sua carne (26, 41b).

A sua morte na cruz rubrica a passagem para uma condição totalmente nova: o fim de um culto de sacrifícios, “o véu do templo rasgou-se”, (v.51) e a nova criação: a terra tremeu… e abriram-se os túmulos (v.51-52) e a plena manifestação de que o Crucificado é o Filho de Deus: o centurião e os que guardavam Jesus, muito amedrontados, disseram: de facto, este era o filho de Deus (v.54).
De acordo com a perspectiva do seu evangelho, Mateus, mais que os outros evangelistas, insiste no cumprimento das Escrituras – explicitamente ou por meio de citações – para indicar que a paixão faz parte do plano salvífico de Deus.

O absurdo da humanidade, encarnada no povo eleito, é que toda a vida se espera a salvação e na hora em que ela aparece, mata-a: Vós acusastes o Santo e o Justo e exigistes que fosse agraciado para vós um assassino, enquanto fazíeis morrer o príncipe da vida (Act 3, 14-15).


Perguntas para reflexão

No relato da Paixão segundo Mateus aparecem várias personagens secundárias:

- Qual é a atitude frente a Jesus da mulher de Betânia, de Pilatos e da sua mulher, dos soldados ao pé da cruz, de Simão de Cirene, das mulheres que seguem Jesus desde a Galileia, de José de Arimateia?

- Qual é a atitude dos discípulos?

- Como entendes a multidão que tão depressa o aclama como pede a sua morte?

- Como reagimos quando vemos alguém a sofrer injustamente?

- Estamos conscientes de que a Paixão de Cristo continua em todos aqueles que sofrem injustamente?

 

 

A Palavra converte-se em oração

Rezar Salmo 22 (21)

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste,
rejeitando o meu lamento, o meu grito de socorro?
Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes;
durante a noite, e não tenho sossego.
Tu, porém, és o Santo
e habitas na glória de Israel.
Em ti confiaram os nossos pais;
confiaram e Tu os libertaste.
A ti clamaram e foram salvos;
confiaram em ti e não foram confundidos.
Eu, porém, sou um verme e não um homem,
o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe.
Todos os que me vêem escarnecem de mim;
estendem os lábios e abanam a cabeça.
«Confiou no Senhor, Ele que o livre;
Ele que o salve, já que é seu amigo.»
Na verdade, Tu me tiraste do seio materno;
puseste-me em segurança ao peito de minha mãe.
Pertenço-te desde o ventre materno;
desde o seio de minha mãe, Tu és o meu Deus.
Não te afastes de mim, porque estou atribulado
e não há quem me ajude.
Rodeiam-me touros em manada;
cercam-me touros ferozes de Basan.
Abrem contra mim as suas fauces,
como leão que despedaça e ruge.
Fui derramado como água;
e todos os meus ossos se desconjuntaram;
o meu coração tornou-se como cera
e derreteu-se dentro do meu peito.

A minha garganta secou-se como barro cozido
e a minha língua pegou-se-me ao céu da boca;
reduziste-me ao pó da sepultura.
Estou rodeado por matilhas de cães,
envolvido por um bando de malfeitores;
trespassaram as minhas mãos e os meus pés:
posso contar todos os meus ossos.
Eles olham para mim cheios de espanto!
Repartem entre si as minhas vestes
e sorteiam a minha túnica.
Mas Tu, Senhor, não te afastes de mim!
És o meu auxílio: vem socorrer-me depressa!
Livra a minha alma da espada,
e, das garras dos cães, a minha vida.
Salva-me da boca dos leões;
livra-me dos chifres dos búfalos.
Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos
e te louvarei no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-o!
Glorificai-o, descendentes de Jacob!
Reverenciai-o, descendentes de Israel!
Pois Ele não desprezou nem desdenhou a aflição do pobre,
nem desviou dele a sua face;
mas ouviu-o, quando lhe pediu socorro.
De ti vem o meu louvor na grande assembleia;
cumprirei os meus votos na presença dos teus fiéis.
Os pobres comerão e serão saciados;
louvarão o Senhor, os que o procuram.
«Vivam para sempre os vossos corações.»
Hão-de lembrar-se do Senhor e voltar-se para Ele
todos os confins da terra;
hão-de prostrar-se diante dele
todos os povos e nações,
porque ao Senhor pertence a realeza.
Ele domina sobre todas as nações.

Diante dele hão-de prostrar-se todos os grandes da terra;
diante dele hão-de inclinar-se todos os que descem ao pó
e assim deixam de viver.
Uma nova geração o servirá
e narrará aos vindouros as maravilhas do Senhor;
ao povo que vai nascer dará a conhecer a sua justiça,
contará o que Ele fez.

ou

Ó Pai, Deus de misericórdia e de perdão, olha com piedade os teus filhos culpados de terem pregado numa cruz o teu amado Filho.
Pelo seu sangue derramado na solidão do abandono, lava todas as nossas culpas e rompe a dureza dos nossos corações, para que, purificados pelas lágrimas do arrependimento, acolhamos o dom da tua infinita compaixão, que é o único que nos pode tornar de novo inocentes.

 

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QUINTA-FEIRA SANTA

 

Com a Quinta-Feira Santa começa o Tríduo Pascal que é o auge de toda a liturgia cristã. Este dia começa com a missa crismal da parte da manhã, presidida pelo bispo e concelebrada pelos sacerdotes que neste dia renovam as suas promessas sacerdotais. O Bispo benze os santos óleos: dos enfermos, dos catecúmenos e do crisma.

À noite celebra-se a Ceia do Senhor, que é a instituição da Eucaristia (e do sacerdócio) e do mandamento do amor tornado visível no lava-pés.

A missão pública de Jesus começa com o Baptismo e termina com a Eucaristia, (sabendo que a seguir vai ser preso e morto). A Eucaristia é a última acção de Jesus com os seus discípulos. Nela, Jesus retoma toda a sua vida e faz dela o sacramento da presença, entrega total de amor.

A Palavra de hoje:

Êxodo 12, 1-8.11-14
1 Coríntios 11, 23-26
João 13, 1-15



Meditação - Êxodo 12, 1-8.11-14

A festa da Páscoa e a dos ázimos eram duas festas muito antigas que existiam antes do Êxodo.
A festa anual dos pastores nómadas tornou-se o memorial de um acontecimento histórico onde Israel reconheceu um acto salvífico de Deus, fazendo-o passar da escravidão à liberdade, da morte à vida. O sangue do cordeiro aspergido nas portas dos judeus era o sinal para a morte não entrar nas suas casas quando passou matando todos os primogénitos no Egipto.

A festa anual dos pães ázimos, pode ter tido como origem uma festa rural que se celebrava no início da colheita dos cereais. Era um ritual de renovação, de recomeço. Ao adoptar esta festa, depois da sua entrada em Canaã, Israel deu-lhe um novo significado, relacionando-a com a saída do Egipto.
A esperança que a Páscoa israelita alimentava foi realizada em Jesus Cristo, nossa Páscoa (1 Cor 5, 7) que realizou o Êxodo, (passagem) da morte à vida.



Evangelho: João 13, 1-15


“Amou-os até ao fim”: João, como os Sinópticos, quer evidenciar na narrativa da última ceia, a total entrega de amor por parte de Jesus. Na entrega do pão e do vinho, vê toda a sua vida para trás e para a frente e faz dela (sua vida) o sacramento da sua presença real.

O “fazei isto em minha memória” dos Sinópticos significa em João “amai-vos como Eu vos amei”, “lavai os pés uns aos outros”; portanto, não é questão de um ritual, até não se fala do cordeiro na ceia, fala-se de pão e vinho. É entrega da própria vida como Jesus: “… entregue por vós, …derramado por vós”. Na palavra “entregue por vós”, os quatro evangelistas se juntam no mesmo sentido que tem a Eucaristia.
A tarefa de lavar os pés era trabalho de escravos e inclusive um rabi não podia exigi-lo a um escravo hebreu. Jesus pede-nos a nós esta mesma humildade, este espírito de serviço recíproco que só se pode inspirar no amor (vv.12-15).

Acolher o escândalo da humilhação do Filho de Deus, que lava pés e é crucificado; deixar-nos purificar pela sua caridade (v.8) leva-nos ao mesmo dinamismo da oblação divina, seguindo o exemplo de Cristo (v.13-15).

Esta é a condição indispensável para participar no seu memorial, para celebrar a Páscoa com Ele.



Perguntas para reflexão

- Como reagem os discípulos ao lava-pés que Jesus faz?
- Como reage Jesus face à resposta negativa de Pedro? Que diz a Pedro e por quê?

- Que sentido dá Jesus a este gesto do lava-pés? Que quer mostrar com ele?
- Como vês o lava-pés relacionado com a Eucaristia?
- Que serviços realiza a nossa comunidade cristã? Qual é o teu “lava-pés” (serviço) na comunidade cristã e na sociedade?
- Por que encontramos tantas dificuldades e resistências à hora de nos pormos ao serviço dos outros?
- Podemos partilhar alguma experiência em que nos sentimos felizes por servir outras pessoas, a começar na própria família?


A Palavra converte-se em oração

Salmo 133 (132)


Vede como é bom e agradável
que os irmãos vivam unidos!
É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça,
a escorrer pela barba, a barba de Aarão,
a escorrer até à orla das suas vestes.
É como o orvalho do monte Hermon,
que escorre sobre as montanhas de Sião.
É ali que o Senhor dá a sua bênção,
a vida para sempre.

 

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SEXTA-FEIRA SANTA

 

Neste dia não há Eucaristia. Celebra-se a Paixão do Senhor, que não pode ser entendida isoladamente, mas na totalidade do tríduo pascal: paixão, morte e ressurreição. A figura do Servo Sofredor ajuda-nos a compreender este mistério do Crucificado.
Esta celebração consta de quatro partes: a liturgia da Palavra; oração Universal; adoração da cruz e Comunhão.

A Palavra de hoje:

Isaías 52, 13 – 53, 12
Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9
João 18, 1 – 19, 42



Meditação - Isaías 52, 13 – 53, 12

Este texto é o quarto cântico do Servo. Isaías apresenta-nos quatro cânticos: (Is 42, 1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12). A figura do servo que aparece no tempo do Exílio pode fazer pensar num profeta, no povo de Israel sofredor no exílio mas o Novo Testamento com o Cristo da Paixão.

Servo, Filho, Cordeiro são termos afins. Vejamos o processo do Servo.

1 – Desanimado no Exílio, pensando que Deus o abandonou, descobre que, mesmo aí, Deus o ama.: “Eis o meu Servo, meu eleito em quem tenho prazer” (1º cântico do Servo).

2 – Amado por Deus, recebe uma missão: a prática da justiça, aliança do povo e luz das nações (2º cântico).

3 – No cumprimento da missão, o servo parece que passa por uma tentação: anunciar e salvar os outros, mas como quem está em situação superior e se for rejeitado Deus vai punir os adversários (3º cântico e versículos seguintes).

4 – No exercício da missão, o servo dá um passo decisivo: aceitar sofrer inocente e njustamente, indo o caminho como um cordeiro conduzido ao matadouro (53,7).

O Servo sofredor inocente mostra que acontece uma injustiça, um absurdo. O servo salva, porque não responde pelo mesmo caminho do opressor. Pode salvar mesmo o opressor que, ao ver o mal causado ao inocente, pode-se arrepender e encontrar a salvação. O sofrimento inocente e por amor salva. (Is 53, 5: esmagado pelas nossas iniquidades…por suas feridas fomos curados).

Hoje na sociedade é o pobre, o pequeno que carrega com os males da sociedade. A grande notícia é que esse sofrimento não é inútil; tem missão salvadora.



Meditação - João 18, 1 – 19, 42

A Igreja celebra a paixão do Senhor com a segurança de que a cruz de Cristo não é a vitória das trevas, mas a morte da morte. Esta visão de fé, aparece de modo particular em João. Jesus é apresentado como rei que conhece a situação, domina-a e apropria-se dela. A Hora de Jesus – que chegou – descreve-se através dos acontecimentos como hora de sofrimento e de glória: o ódio do mundo, condena Jesus, à morte de cruz, mas do alto da cruz, Deus manifesta o seu amor infinito. Nesta esplêndida revelação, nesta total entrega divina, consiste a glória. A cruz é glória porque é vitória do amor levado ao extremo. É prova máxima do amor de Deus.

A vida de Jesus não foi só ensinar o bem, não foi só fazer o bem; foi entregar a vida e sofrer como aqueles que Ele quer salvar. Não basta ensinar o bem, não basta fazer o bem de vez em quando; só basta entregar a vida, sofrer com quem sofre.

A narração da paixão começa e termina num horto – lembrança do Éden – querendo indicar que Cristo assumiu e redimiu o pecado do primeiro Adão e o homem recobra agora a sua beleza original. A narração ao mostrar o sofrimento de Jesus, ressalta que Jesus é o Senhor, que Ele é Deus: SOU EU e que a história não lhe foge da mão.

O termo rei aparece doze vezes no relato da paixão (dezasseis em todo o quarto evangelho). No momento em que Jesus é julgado, cumpre-se antes demais, o juízo sobre o mundo.

Quando é elevado na cruz, cumpre-se a Escritura (19, 28. 36-37). Precisamente no momento da morte nasce a Igreja onde Maria é Mãe (19, 26-27: Eis o teu filho, eis a tua mãe. O novo povo regenerado no Baptismo e alimentado com a Eucaristia celebrará ao longo dos séculos a Páscoa do verdadeiro Cordeiro (19, 33; cf. Ex 12, 16), até que se cumpra no reino de Deus (Lc 22, 16).
 


A Palavra converte-se em oração

Senhor Jesus,
que levantado da terra atrais todas as criaturas para Ti,
tem piedade de nós.
Perdoa a nossa incapacidade para compreender
que a tua impotência na cruz
é a maior revelação do amor humilde
de um Deus que se faz o nosso próximo
até partilhar a solidão de toda a morte.
Cura-nos pelo mistério da tua debilidade,
do nosso orgulho desmesurado,
a fim de que, morrendo para nós mesmos,
vivamos entre nós em comunhão fraterna,
levando uns as cargas dos outros
para podermos apresentar-nos juntos, ao teu Pai e nosso Pai.

 

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SÁBADO SANTO

 

Vigília Pascal

 

 

A Liturgia da Vigília Pascal tem as seguintes partes:

1 – Liturgia da Luz: Cristo ressuscitado, luz do mundo que não se apaga mais.

2 – Liturgia da Palavra: História da salvação – da criação à ressurreição “nova criação”

3 – Liturgia Baptismal: nossa entrada na ressurreição com Jesus

4 – Liturgia Eucarística: Vivência e celebração permanente da morte e ressurreição de Cristo e da nossa vida cristã.
 


A celebração da Morte e Ressurreição do Senhor tem o seu ponto culminante na Vigília Pascal, coração da liturgia cristã, centro do ano litúrgico, a mais antiga, a mais sagrada, a mais rica de todas as celebrações, no dizer de S. Agostinho a “mãe de todas as vigílias”.

O mistério pascal não é estático, mas dinâmico. Não é um estado de Cristo, mas uma “passagem”, um movimento, em que é envolvido todo o povo de Deus. A espera dos cristãos nesta noite santa não se reduz à comemoração de um Facto objectivo e real. É a espera de Alguém. É a espera do Senhor que volta para nos levar a fazermos a sua “passagem”, a sua Páscoa com Ele.

Ao celebrarem a primeira manhã de Páscoa, os cristãos esperam com alegria a sua própria manhã de Páscoa.

Ser baptizado é, na verdade, morrer com Cristo para ressuscitar com Ele. Por isso, a Igreja, desde, os tempos mais antigos, pensou que o melhor meio de celebrar o mistério pascal era baptizar nesta noite, os seus catecúmenos e levar os baptizados a fazer memória viva dos compromissos do seu dia de Baptismo.

(O Missal Romano tem nove leituras para a Vigília Pascal: sete do Antigo Testamento e duas do Novo Testamento. Mantendo a visão da história da salvação, como a Liturgia o exige, apresentamos aqui três leituras do Antigo Testamento e duas do Novo Testamento).


A Palavra de hoje:

1 - Génesis 1, 1 – 2,2
2 - Êxodo 14, 15 – 15, 1
3 - Ezequiel 36, 16-17 a.18-28
4 - Romanos 6, 3-11
5 - Mateus 28, 1-10



Meditação

Depois da celebração da Luz, simbolizando a Ressurreição, a Liturgia volta atrás apagando as luzes para ver o caminho da História que conduziu até à Ressurreição. No entanto, o Círio pascal, que simboliza Cristo ressuscitado, permanece aceso. É nele que se acende a vela durante o Baptismo. Cristo é a luz do mundo e o cristão, no Baptismo, recebe a missão de ser testemunha da luz.

A primeira leitura relata-nos a Criação. Assim começa a Sagrada Escritura: “No princípio Deus criou…”. É a Palavra de Deus que cria e ordena o Universo. A coroa da criação é o homem e a mulher, criados “à sua imagem e semelhança” v.26: Com o ser humano, a criação fica completa e a partir daí, em vez de bom o texto diz: Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom (v.31).

A nossa primeira vocação é à vida em comunhão com Deus, com os nossos semelhantes, e a harmonia com a natureza.

Como vimos no primeiro domingo da Quaresma, (1ª leitura), os males que vemos no mundo (fratricídio, desordem moral, idolatria, injustiça, tráfico humano e toda a opressão e escravatura) não vêm de Deus; vêm da desobediência do ser humano à sua Palavra e da influência externa negativa.

 

Na segunda leitura, Deus escuta o grito do povo oprimido e liberta-o da escravidão. É o Êxodo.
Na experiência do Êxodo, após a passagem do Mar Vermelho, o povo exclama: “foi o Senhor que nos salvou” (Ex 14,31). E cantam o hino da vitória (Ex 15, 1-21).

As águas do Mar Vermelho, uma ameaça de morte, convertem-se em fonte de salvação; (por isso o Cristianismo viu nessa passagem do Mar, um símbolo das águas baptismais. Cf. Oração da Bênção da água na Vigília Pascal).
A passagem do mar aparece aos olhos do povo liberto, como uma impressionante revelação de Deus, que actua na história. Este texto termina com três verbos fundamentais: o povo viu, temeu e acreditou. Estes verbos aparecem nas narrações evangélicas da ressurreição de Cristo. As maravilhas realizadas pelo Senhor reforçam a fé dos libertos do Egipto que podem retomar o caminho e exaltar solenemente a experiência vivida, como aparece no cântico da vitória (Ex 15, 1-21).

Sabemos como o povo, pouco depois, começou a murmurar contra Deus e contra Moisés e caiu na idolatria e na prática das injustiças, negando a aliança com Deus e uns com os outros.
Mas Deus não abandona o seu povo. Repetidas vezes contrai aliança com os homens, e pelos Profetas, os forma na esperança da salvação (cf. IV Oração Eucarística). Vai nascendo no coração do povo pobre e humilde, a esperança do Messias, e paralelamente se anuncia que Deus vai dar um coração novo, um espírito novo, como lemos na leitura de Ezequiel. “Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; …Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos.

Ao longo da história da salvação foram aparecendo luzes de esperança, resistências ao mal, e desejos de vida. A Ressurreição de Cristo surge como a grande Luz, que ilumina toda a história para trás e para a frente. Nela ganham sentido todas as resistências ao mal e desejos de vida da humanidade. A pedra da morte que pesava sobre a humanidade foi removida! (Marcos 16,3)

A morte e a ressurreição de Cristo é a resposta de Deus ao grito de todos os oprimidos da humanidade, também ao de Cristo na cruz. É a nova criação; é vida eterna.

O verdadeiro e definitivo Êxodo é a passagem da morte à vida. Todo o ser deseja viver para sempre; o maior obstáculo na frente é a morte. A criação existe, ninguém a pode negar, ninguém assistiu ao começo, mas está aí, como uma evidência. A ressurreição é uma nova criação, que já começou; também já está aí. O que estamos a ver no mundo que é realidade da nova criação e que não podemos negar?
Os primeiros cristãos, quando fizeram a experiência que Jesus está vivo exclamam: é o Senhor: (Vi o Senhor! - Jo 20,18; Vimos o Senhor - Jo 20, 25; É o Senhor - Jo 21,7; o Senhor ressuscitou Lc 24, 34).
O povo de Deus, quando se viu libertado da escravidão no Egipto, tendo passado a pé enxuto, o Mar vermelho: exclamou: foi o Senhor que nos libertou.

Reparar na relação e semelhança da experiência de fé dos dois Êxodos: saída da escravidão no Egipto e saída da morte.”É o Senhor!”

A vigília pascal é o momento oportuno e próprio para o Baptismo; é por isso que os catecúmenos são baptizados nesta noite e os baptizados renovam o seu Baptismo.

A ressurreição de Jesus não é um estado estático mas Movimento de vida eterna, nova criação acessível a todos em Cristo ressuscitado. “Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova” (Rom 6, 4).

Ser cristão é ter esta alegria e certeza da vida eterna, mas também é uma missão: ser testemunha da ressurreição de Jesus (Act 1, 8).
A semente de eternidade que o Baptismo lança em nós, deve guardar-se e crescer, para que a graça de uma vida nova se desenvolva em plenitude.

Jesus não só ressuscitou, mas tornou-se visível (Act 10, 40; Apoc 1, 1). O Jesus ressuscitado deve ser visibilizado pelas comunidades cristãs (cf. Apoc 2 – 3). Isto acontece quando tornamos visível o sofrimento inocente invisível; por outras palavras, o Ressuscitado é o Crucificado.

Ao mostrar pela própria vida o sofrimento dos injustamente oprimidos, como o Servo de Javé (cf. Isaías) estamos a realizar a nossa missão de testemunhas da ressurreição, mostrando os “crucificados” de hoje.

Para os neófitos (recém-baptizados) o tempo pascal é o tempo da mistagogia. Eles são recebidos e acarinhados como novos cristãs pela comunidade cristã, vão participar em toda a vida da Igreja, acompanhados pelos padrinhos e catequistas; devem ter um lugar reservado no meio dos fiéis e a liturgia deve referir-se a eles directamente. No final do tempo da mistagogia deve-se fazer uma celebração e uma avaliação de como foi a sua integração plena e feliz na comunidade cristã.
 


Perguntas para reflexão


- Sabes a data do teu Baptismo

- Saúdas e recebes com carinho os novos baptizados?

- Se a Vigília Pascal é o máximo da nossa fé e de toda a Liturgia cristã, por quê a maioria das nossas paróquias não a celebra?

- Ser cristão é ser testemunha da ressurreição de Cristo. Como é que tu O testemunhas e tornas visível?

- A ressurreição é uma nova criação. O que estamos a ver no mundo que é realidade desta nova criação?



A Palavra converte-se em oração

Concede-nos, Senhor,
o olhar límpido da fé,
e acende em nosso coração um amor ardente por Ti,
a fim de que possamos entrever
em cada acontecimento a luz do teu mistério pascal,
a ocasião de graça em que Tu nos esperas
para um encontro sempre renovado,
para uma missão mais eficaz com os irmãos,
para uma alegria grande e sem fim.

 

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