
Mawe vive no
campo de desalojados de Salala, uma pequena cidade da
Libéria. Com 200 famílias partilha casas de banho,
duches e o poço. O campo parece um imenso mar de toldes
de plástico branco. Mawe não conhece a electricidade nem
nada relacionado com ela, como televisor, computador ou
frigorífico... |
Libéria:
Tomar
banho à luz das velas
Michael
Heinz - svd
Quando
Mawe se levanta, às seis da manhã, na Libéria é ainda noite cerrada.
Com muito cuidado afasta para o lado a fina manta para não acordar
as sua jovens irmãs que dormem junto dela.
Mawe acende uma vela e sai de casa. Antes de se deitar, preparou um
balde com água. “De manhã no poço junta-se muita gente, por isso é
mais fácil tirar água à noite”, afirma a jovem de 14 anos. Com um
vela e o balde dirige-se aos duches comuns, um conjunto de pequenos
espaços de um metro construido pelo serviço da ONU aos refugiados
com simples chapas de zinco.
Mawe vive no campo de desalojados de Salala, uma pequena cidade da
Libéria. Com 200 famílias partilha casas de banho, duches e o poço.
O campo parece um imenso mar de toldes de plástico branco. Mawe não
conhece a electricidade nem nada relacionado com ela, como
televisor, computador ou frigorífico. Em todo o país não existe um
serviço normal de distribuição de corrente eletrcica nem de água.
Somente alguns comerciantes e organizações internacionais possuem
geradores de electricidade. Inclusive a escola nocturna para adultos
no campo de refugiados de Salala funciona à luz de candeiros a gás
ou lanternas.
Cerca de meio milhão de pessoas vivem, como a família de Mawe, no
campo, em torno da capital Monróvia e da pequena cidade de Salala. A
estes há que acrescentar, segundo o serviço de refugiados da ONU,
umas 200 mil pessoas que fugiram para os países vizinhos da Gunié,
Costa do Marfim e Gana. Quase um terço da população da Libéria é
refugiada. A guerra civil deslocou, em 15 anos, centenas de milhares
de pessoas das suas aldeias. Dezenas de milhares perderam a vida em
consequência da guerra.
Muitos, como a família de Mawe, escaparam com vida mas perderam
todos os seus haveres. Mawe provém de Foya, uma pequena cidade no
norte do país, não longe da fronteira com Serra Leoa. “Quando as
tropas de Charles Taylor invadiram a nossa província a partir da
Guiné, deixam no seu rasto apenas morte, ruínas e desalojados”,
comenta o seu pai Alex. “Nenhuma região sofreu tanto como a nossa
Província de Lofa”.
Ao princípio, Alex refugiou-se entre alguns parentes que acolheram a
sua família. Mas os cambatentes aproximaram-se cda vez mais. Por
isso, não lhe restou outra alternativa que proteger-se num campo de
refugiados. Desde Fevereiro, a sua família composta por oito mebros
vive em Salala, onde encontraram uma casa provisória.
“Graças ao serviço aos refugiados dos Jesuitas (JRS) os meus filhos
podem frequentar a escola”, diz satisfeito Alex. “Na semana passada
foi inaugurada uma biblioteca, que não existe em nenhum outro campo
e da qual nos sentimos muito orgulhosos”.
COLABORAÇÃO VERBITA
Três missionários do Verbo Divino trabalham nos campos de refugiados
da Libéria, juntamente com os Jesuítas, um sacerdote diocesano e a
Irmã Mary, das Franciscanas Missionárias.
O Irmão Marek Wojtas, de origem polaca, orienta cursos para
pedreiros, carpinteiros e serralheiros. “Desta forma – comenta – as
pessoas estarão em condições de colaborar na reconstrução, quando
regressarem às suas aldeias”. O serviço de refugiados oferece para
as mulheres cursos de padadria, corte e confecção e batik. “Também
animamos as mulheres a acabar com a primazia dos homens em
carpintaria e na construção. Quatro muheres, entre 54 homens,
assistem aos cursos de pedreiros. Por seu lado, alguns homens
participam no curso de corte e cofeccção onde predominam as
mulheres”.
O Irmão Jay Too, da Indonésia, é o responsável pelos cursos de
alfabetização. Segundo dados oficiais, metade dos adultos liberianos
sabe ler e escrever. Além disso, organiza cursos de formação
permanente para os 250 professores que ensinam nas escolas do campo
de refugiados. Jay tinha já experiência de trabalho com refugiados
na Tailândia.
O terceiro missionário do Verbo Divino do grupo é o Pe. Jacek
Gniadek e é o encarregado de providenciar o necessário aos projectos
de formação em nove campos. No entanto, o seu trabalho principal é a
atenção pastoral das pequenas comunidades católicas dos campos. A
experiência missionária adquirida no Botswana e no Congo é-lhe aqui
extremamente útil. Os católicos na Libéria são certamente uma
minoria – entre 7 e 10% da população total – mas, além da atenção
aos cristãos, o Pe. Jacek procura ter os ouvidos abertos também aos
outros. No entanto, sem a ajuda dos catequistas e professores,
ser-lhe-ia impossível abarcar toda a gente.
Alex é um deles. Como catequista, é o coordenador das actividades
escolares no campo. “Espero que os missionários nos acompanhem às
nossas aldeias, quando dentro de um mês iniciarmos o regresso”,
observa este quarentão. Talvez assim a sua filha Mawe possa terminar
a sua formação académica.
Depois do banho, Mawe acorda Nancy, a sua irmã mais nova, e põe a
aquecer o puré de arroz. Depois empreende o caminho para a escola.
Em Salala começa um novo dia. O crespúsculo matutino rompe as trevas
da noite. Os missionários não levam para a Libéria a luz eléctrica,
mas um raio de esperança ilumina na escuridão mais do que uma
lâmpada de 100 wats.
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